A Proteção da Diversidade na Comunidade Bahá'í

A tônica da abordagem bahá'í da organização social não é a uniformidade, mas sim, a unidade na diversidade. Um dos elementos essenciais da Fé Bahá'í é um sistema de ensinamentos e instituições que asseguram a liberdade de opinião individual, protegem os direitos individuais, independente de raça, cor, religião, nacionalidade, classe ou posição em relação à Fé, e encorajam a plena participação das minorias na vida comunitária bahá'í. Nas palavras de Bahá'u'lláh, "Não pode haver dúvida alguma de que os povos do mundo, de qualquer raça ou religião que sejam, derivam sua inspiração de uma só Fonte celestial e são súditos de um só Deus."

A operação desse princípio é mais imediatamente visível na atitude bahá'í em relação à própria noção de crença. Cada ser humano, na condição de alma dotada de razão, é não apenas livre para investigar a realidade, mas também responsável perante Deus por fazê-lo. No Livro da Certeza, ou Kitáb-i-Iqán, descrevendo as qualidades daquele que verdadeiramente busca, Bahá'u'lláh estabelece o padrão de sinceridade, de ardor e de pureza de intenção que deve reger essa busca perpétua da verdade. É apenas à medida que a confiança íntima começa a se formar que a alma pode assumir aquele compromisso da mente e do coração que chamamos de fé. Conseqüentemente, ninguém é compelido a tornar-se bahá'í; qualquer pessoa ingressa na Fé quando descobre a Bahá'u'lláh como a Manifestação de Deus para nossa época e declara livremente sua crença a uma Assembléia Espiritual. Da mesma forma, se alguém, por qualquer razão, perder a fé e deixar de se considerar um crente, é igualmente livre para retirar-se.

Dentro da comunidade bahá'í, o incentivo à diversidade de opiniões tem implicações importantes nos domínios tanto da crença como da ação. A Casa Universal de Justiça assinalou que "a interpretação individual é considerada o fruto do poder racional do homem e conduz a uma melhor compreensão dos ensinamentos, contanto que nenhuma disputa ou controvérsia surja entre os bahá'ís, e o próprio indivíduo entenda e deixe claro que seus pontos de vista são meramente opiniões pessoais. "Esse respeito pelas diferenças de opinião de modo algum se limita aos pontos de vista de bahá'ís. Nas palavras de Bahá'u'lláh: "Adverte… os amados do Deus uno e verdadeiro, para que não vejam com olhos demasiado críticos os dizeres e escritos dos homens. Que considerem, isto sim, esses dizeres e escritos com mente aberta e em espírito de amorosa harmonia."

Do mesmo modo, no processo decisório pelo qual a comunidade bahá'í administra seus assuntos, dá-se grande valor ao amplo espectro de opiniões que os crentes trazem a essas consultas. Uma vez a cada dezenove dias, na Festa dos Dezenove Dias, cada membro da Fé tem a oportunidade de expressar seus pontos de vista ou recomendações em relação a questões de natureza local, nacional ou até mesmo internacional. A instituição da convenção bahá'í, funcionando no nível regional, nacional e internacional, oferece ainda outra série de oportunidades para essa expressão franca de opiniões pessoais. Os padrões que governam tais atividades estão claramente definidos nos escritos bahá'ís:

Os membros das Assembléias Espirituais Bahá'ís devem consultar de tal modo que não haja ocasião para mal-estar ou discórdia. Isso pode ser alcançado quando cada membro expressa, com absoluta liberdade, sua própria opinião e apresenta seu argumento. Se alguém se opuser, ele não deve, de forma alguma, sentir-se magoado, pois enquanto os assuntos não forem completamente discutidos, o caminho certo não se revelará. A brilhante centelha da verdade surge apenas após o impacto de opiniões divergentes."

A integridade desses processos consultivos é protegida, ainda mais, pela natureza das instituições que exercem a autoridade na comunidade bahá'í. Todos os poderes decisórios na Fé, quer legislativos ou administrativos, foram outorgados pelo Fundador a instituições democraticamente eleitas pelo corpo dos crentes. Os membros dessas instituições, sem exceção, são escolhidos pela comunidade bahá'í por votação secreta, eleição por maioria relativa e um processo eleitoral livre de qualquer forma de campanha, tendo a autoridade de tais disposições sido claramente expressa nas próprias escrituras reveladas. Dessa maneira, a comunidade está protegida contra a imposição da vontade ou liderança arbitrárias de indivíduos.

Uma das responsabilidades que Bahá'u'lláh atribui à ordem administrativa assim instituída é a proteção dos direitos de todas as pessoas. A guardiã máxima desse princípio vital é a própria Casa Universal de Justiça, cuja constituição estipula explicitamente como responsabilidades: "salvaguardar os direitos pessoais, a liberdade e a iniciativa dos indivíduos", "assegurar que nenhum corpo ou instituição dentro da Causa abuse de seus privilégios" e "ser a expoente e guardiã daquela Justiça Divina que, tão-somente, pode garantir a segurança do mundo e nele estabelecer o império da lei e da ordem."

O padrão de justiça para com todas as pessoas, ao qual a citação acima se refere, foi sintetizado numa carta do Guardião da Fé a membros da comunidade bahá'í:

O ponto para o qual gostaria de lhes chamar a atenção é que devem ter o mais escrupuloso cuidado para proteger os direitos pessoais e civis legítimos de todas as pessoas, seja qual for seu ofício ou posição na vida, e independente de raça, religião ou ideologia. Não é permissível, em assuntos ligados a tais direitos, fazer distinções ou discriminações, nem mostrar preferências. Em todas as interações e procedimentos que afetam os direitos humanos fundamentais, o padrão exigido dos defensores escolhidos de Bahá'u'lláh, padrão esse que deve merecer sua aceitação sem hesitação ou reservas, e que devem sustentar diligente e meticulosamente, é que não façam a menor distinção entre amigo e estranho, crente e não crente, defensor e antagonista.

A mesma carta deixa claro que os direitos das pessoas hostis à Fé Bahá'í, mesmo os daquelas que violaram o Convênio de Bahá'u'lláh, estão incluídos. Os rompedores do Convênio são aqueles que, embora afirmem ser expoentes fiéis da religião de Bahá'u'lláh, rejeitam a autoridade estabelecida nos próprios escritos de Bahá'u'lláh ou nas interpretações autorizadas de 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi, buscando desviar a Fé na direção de seus fins pessoais. Sua posição é diferente, portanto, daquela de pessoas que meramente se opõem à Fé e, por essa razão, podem buscar prejudicá-la ou suprimi-la de alguma forma. 'Abdu'l-Bahá disse que a única maneira que a comunidade bahá'í pode lidar com a insinceridade fundamental que está por trás do rompimento do Convênio é que os crentes evitem o contato com os envolvidos, do mesmo modo que as pessoas saudáveis evitam o contato íntimo com pessoas que sofrem de doenças físicas contagiosas. Essa atitude de evitar riscos desnecessários não deve, porém, levar a cerceamento algum dos direitos humanos de nenhuma pessoa, inclusive de rompedores do Convênio:

…o mero fato de surgir desavença, ou alienação, ou renúncia à crença, de modo algum pode diminuir os direitos civis legítimos dos cidadãos livres ou de alguma outra forma infringi-los, nem mesmo na extensão do fundo de uma agulha. Se os bahá'ís agissem de outra maneira, isso representaria uma reversão de sua parte neste século de radiância e luz às atitudes de uma era passada eles estariam reacendendo nos peitos dos homens o fogo do fanatismo e da intolerância; estariam desligando-se das gloriosas graças e dádivas deste Dia prometido de Deus; e estariam frustrando a plena revelação da graça e do favor de Deus aos homens nesta era luminosa.

Mais que qualquer outra coisa, a Fé Bahá'í nutre e promove o desenvolvimento das minorias. O Guardião explicou que esse cultivo amoroso dos elementos diversos que compõem a família humana é uma responsabilidade moral da comunidade de Bahá'u'lláh:

Diferentemente das nações e povos da Terra, sejam do Oriente ou Ocidente, democráticas ou autoritárias, comunistas ou capitalistas, quer do Velho ou do Novo Mundo, que ignoram, menosprezam ou extirpam as minorias raciais, religiosas ou políticas de sua esfera de jurisdição, toda comunidade organizada alistada sob a bandeira de Bahá'u'lláh deve ter como sua primeira e inescapável obrigação nutrir, encorajar e salvaguardar toda minoria, pertencente a qualquer fé, raça, classe ou nação, em seu seio.

Esse princípio se expressa de forma prática nas disposições que regem o funcionamento das instituições administrativas bahá'ís. A passagem supracitada prossegue afirmando que "em tais circunstâncias, como quando há igualdade de número de votos em uma eleição, ou onde as qualificações para qualquer função estão bem equilibradas entre várias raças, fés ou nacionalidades dentro da comunidade, deve-se dar prioridade, sem hesitação, à parte que representa a minoria, e isso por nenhuma outra razão senão estimulá-la e encorajá-la."

A grande importância que a Fé Bahá'í atribui à diversidade do pensamento e da experiência humanas não deveria levar a crer, entretanto, que ela incentive as formas extremas de individualismo que põem em risco o bem comum. Ao contrário, a Fé preceitua que é cedendo uma medida de liberdade pessoal a um sistema de leis universalmente aceito que o indivíduo ajuda a criar um ambiente social que rende benefícios muito maiores, em termos de liberdade pessoal, que o investimento necessário.

A ordem administrativa bahá'í, cujas características principais foram aqui delineadas, foi descrita pelo Guardião "não apenas como o núcleo, mas como o próprio padrão da Nova Ordem Mundial" prevista por Bahá'u'lláh. Nela já se pode começar a visualizar a forma que a comunidade bahá'í do futuro distante irá assumir. Cada vez mais, à medida que suas instituições se desenvolvem e os membros da Fé logram aplicar seus princípios de maneira mais plena e inteligente, a capacidade desse sistema ímpar de proteger a imensa diversidade da família humana ficará patente a qualquer observador imparcial.

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