'Abdu'l-Bahá: o Centro do Convênio


'Abdu'l-Bahá em Paris, 1912.

Em 29 de novembro de 1921, dez mil pessoas -- judeus, cristãos e muçulmanos de todas as correntes e denominações -- reuniram-se no Monte Carmelo, na Terra Santa, para chorar o passamento de Alguém que foi louvado como a essência da "Virtude e Sabedoria, do Conhecimento e Generosidade". Naquela ocasião, 'Abdu'l-Bahá -- Filho e sucessor designado de Bahá'u'lláh -- foi descrito por um líder judeu como um "exemplo vivo de auto-sacrifício", por um orador cristão como Alguém que conduziu a humanidade ao "Caminho da Verdade", e por um proeminente líder muçulmano como um "pilar da paz" e a personificação da "glória e grandeza". Seu funeral, de acordo com um observador ocidental, reuniu uma grande multidão "que pranteava Sua morte, mas ao mesmo tempo se regozijava por Sua vida."

Por todo o Ocidente e Oriente, 'Abdu'l-Bahá era conhecido como um embaixador da paz, um campeão da justiça e o expoente maior de uma nova Fé. Através de uma série de viagens memoráveis pela América do Norte e Europa, 'Abdu'l-Bahá -- tanto por palavra como exemplo -- proclamou de forma persuasiva e poderosa os princípios essenciais da religião de Seu Pai. Afirmando que "o amor é a lei maior" que alicerça "a verdadeira civilização", e que "a necessidade suprema da humanidade é a cooperação e reciprocidade" entre todos os seus povos, 'Abdu'l-Bahá tinha os braços abertos para os líderes bem como para os humildes, para qualquer alma que cruzasse Seu caminho.

  Um comentarista americano escreveu:

Ele encontrou uma audiência numerosa e simpática à Sua espera para saudá-Lo pessoalmente e receber de Seus próprios lábios Sua mensagem amorosa e espiritual. Para além das palavras pronunciadas, havia algo indescritível em Sua personalidade que impressionava profundamente todos os que chegavam à Sua presença. A cabeça majestosa, a barba patriarcal, os olhos que pareciam ter visto além do alcance do tempo e dos sentidos, a voz suave porém claramente penetrante, a humildade transparente, o amor incondicional,-- mas acima de tudo, o sentimento de poder combinado com bondade, que investia todo o Seu ser de uma rara majestade de sublimidade espiritual que O distinguia de todos, e todavia O aproximava mesmo da mais humilde alma -- foi tudo isso, e muito mais, que jamais se poderá definir, que deixou com Seus inúmeros amigos lembranças que são indeléveis e indizivelmente preciosas. 

Entretanto, por mais magnética que tenha sido Sua personalidade, ou aguçadas suas percepções sobre a condição humana, tais características não representam adequadamente a posição ímpar de 'Abdu'l-Bahá na história religiosa. Nas palavras do próprio Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá era o "Bem Confiado por Deus", "um abrigo para toda a humanidade", "o mais grandioso favor" e "o antigo e imutável Mistério" de Deus. As escrituras bahá'ís afirmam ainda que "na pessoa de 'Abdu'l-Bahá as características incompatíveis de uma natureza humana e de conhecimento e perfeição sobre-humanos foram combinadas e estão plenamente harmonizadas."

A questão da sucessão religiosa tem sido crucial para todas as fés. O fracasso em resolver essa questão tem levado, inevitavelmente, à discórdia e divisão. A ambigüidade sobre os verdadeiros sucessores de Jesus e Maomé, por exemplo, levou a interpretações divergentes das sagradas escrituras e profunda dissensão tanto dentro da Cristandade quanto do Islã. Bahá'u'lláh, porém, evitou o cisma e estabeleceu um alicerce inexpugnável para Sua Fé mediante o que estipulou em Sua última vontade e testamento, documento intitulado "O Livro de Meu Convênio". Escreveu Ele: "Quando o oceano de Minha presença tiver refluído, e o Livro de Minha Revelação se achar completo, volvei vossas faces Àquele Eleito por Deus, Aquele que brotou desta Raiz Antiga. Este sagrado versículo a nenhuma pessoa se refere, senão ao Mais Poderoso Ramo ['Abdu'l-Bahá]."


'Abdu'l-Bahá na juventude.

Em designando 'Abdu'l-Bahá como Seu sucessor, Bahá'u'lláh estabeleceu o instrumento para difundir Sua mensagem de esperança e paz universal a todos os recantos do mundo e concretizar a unidade essencial de todos os povos. Referindo-se a 'Abdu'l-Bahá, Bahá'u'lláh escreveu: "A glória de Deus repouse sobre Ti, e sobre quem quer que sirva a Ti e ande ao Teu redor. Infeliz, grandemente infeliz aquele que a Ti se opõe e Te injuria. Bem-aventurado aquele que jura fidelidade a Ti." 'Abdu'l-Bahá foi, em poucas palavras, o Centro do Convênio de Bahá'u'lláh-- o instrumento para garantir a unidade da comunidade bahá'í e preservar a integridade dos ensinamentos de Bahá'u'lláh.

Como o intérprete autorizado dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá tornou-se a "viva voz do Livro, o expositor da Palavra". Sem 'Abdu'l-Bahá, o enorme poder criativo da revelação de Bahá'u'lláh não poderia ter sido transmitido à humanidade, nem sua significação inteiramente compreendida. Ele elucidou os ensinamentos da Fé de Seu Pai, ampliou suas doutrinas e delineou os aspectos principais de suas instituições administrativas. Foi o guia infalível e arquiteto de uma comunidade bahá'í em rápida expansão. Ademais, Bahá'u'lláh conferiua 'Abdu'l-Bahá "as virtudes da perfeição na conduta pessoal e social, a fim de que a humanidade tenha um modelo duradouro para seguir." Como o Exemplar perfeito dos ensinamentos de Bahá'u'lláh e o Pivô de Seu Convênio, 'Abdu'l-Bahá veio a ser "o meio incorruptível para a aplicação da Palavra a medidas práticas para a construção de uma nova civilização."

Observando em retrospecto, fica claro que Bahá'u'lláh preparara cuidadosamente o Filho para sucedê-Lo. 'Abdu'l-Bahá nasceu em 23 de maio de 1844, na mesma noite em que o Báb proclamara o início de um novo ciclo religioso da história. Na infância, sofreu com o Pai durante as perseguições contra os babis. Contava oito anos de idade quando Bahá'u'lláh foi aprisionado pela primeira vez por Seu papel como expoente de primeira grandeza e defensor da Fé Babi. Acompanhou Bahá'u'lláh por todo o Seu longo exílio da Pérsia à capital do Império Otomano e, por fim, à Palestina. Na maturidade, 'Abdu'l-Bahá se tornou o companheiro mais querido de Seu Pai e emergiu como Seu representante, escudo e embaixador no trato com os líderes políticos e religiosos da época. A extraordinária liderança, conhecimento e servitude que 'Abdu'l-Bahá demonstrou trouxeram enorme prestígio à comunidade bahá'í exilada. Ele assumiu Seu papel de Líder da Fé Bahá'í após o passamento de Bahá'u'lláh, em 1892.

Em 1911, depois de mais quatro décadas de cativeiro e sofrimento, 'Abdu'l-Bahá viajou ao Ocidente, onde apresentou com simplicidade brilhante, a poderosos como humildes, a prescrição de Bahá'u'lláh para o renascimento moral e espiritual da sociedade. Esse "Chamado de Deus", afirmou 'Abdu'l-Bahá, "... insuflou vida nova no corpo da humanidade, e infundiu um novo espírito em toda a criação. É por essa razão que o mundo foi abalado até o âmago, e os corações e consciências dos homens foram vivificados. Em breve as evidências dessa regeneração serão reveladas, e os que estão em sono profundo serão despertados."

Entre as verdades vitais que 'Abdu'l-Bahá proclamou incansavelmente aos líderes do pensamento, bem como a incontáveis grupos e multidões em geral, figuravam: "A busca independente da verdade, livre dos grilhões da superstição e da tradição;a unidade da raça humana inteira, o princípio maior e doutrina fundamental da Fé; a unidade essencial de todas as religiões; a condenação de todas as formas de preconceito, quer de religião, raça, classe ou nacionalidade; a harmonia que deve existir entre a religião e a ciência; a igualdade entre o homem e a mulher, as duas asas com as quais o pássaro que é a humanidade pode voar; a introdução da educação compulsória;a adoção de um idioma auxiliar universal; a abolição dos extremos de riqueza e pobreza; a instituição de um tribunal mundial para o julgamento das disputas entre as nações; a exaltação do trabalho, realizado em espírito de serviço, ao grau de adoração; a glorificação da justiça como o princípio regente da sociedade humana, e da religião como baluarte para a proteção de todos os povos e nações; e o estabelecimento de uma paz permanente e universal como a meta suprema de todo o gênero humano."

Ele afirmou repetidamente ser um "arauto da paz e reconciliação", "um defensor da unidade da humanidade" e um agente a convocara a raça humana ao "Reino de Deus". Apesar da receptividade e aclamação que recebeu, 'Abdu'l-Bahá deixou clara a Fonte de Sua inspiração e Sua verdadeira posição. Numa carta a Seus seguidores nos Estados Unidos, escreveu:


'Abdu'l-Bahá na Haifa (1913).

Meu nome é 'Abdu'l-Bahá [literalmente, Servo de Bahá]. Minha qualificação é 'Abdu'l-Bahá. Minha realidade é 'Abdu'l-Bahá. Meu louvor é 'Abdu'l-Bahá. Servidão à Abençoada Perfeição [Bahá'u'lláh] é meu glorioso e reluzente diadema, e servitude a toda a raça humana, minha religião perpétua... Nenhum nome, nenhum título, nenhuma menção, nenhum louvor tenho, nem jamais terei, a não ser 'Abdu'l-Bahá. Esse é meu anelo. Essa é minha aspiração suprema. Essa é minha vida eterna. Essa é minha glória imorredoura. 

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